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MAV cerebral e cognição

Foto do escritor: Daniela C
Daniela C
3 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.



Se você ou alguém que você ama recebeu o diagnóstico de uma malformação arteriovenosa (MAV) cerebral, é bem provável que quase toda a conversa com a equipe médica tenha girado em torno de uma pergunta: qual é o risco de sangramento?

Faz sentido, a hemorragia é o desfecho mais temido, e cuidar dela é fundamental.


Mas existe um outro lado dessa história, do qual quase ninguém fala. Um lado que pode estar afetando o seu dia a dia agora, muito antes de qualquer sangramento: a forma como você pensa, lembra, se concentra e organiza as tarefas do cotidiano. Ou seja, a sua cognição.


Ao longo dos últimos 14 anos, dediquei minha atuação a clínica e a pesquisa justamente a entender essa relação entre as doenças cerebrovasculares e o funcionamento cognitivo. E os dados apontam para algo importante: a MAV pode, sim, afetar o funcionamento cognitivo, mesmo quando nunca houve sangramento algum. Escrevi este texto para explicar isso de forma clara e para mostrar por que avaliar a sua cognição não é um luxo, e sim parte do cuidado que você merece.


O que é uma MAV?


A MAV é uma condição com a qual, congênita, a pessoa já nasce com ela. Nela, um grupo de artérias e veias do cérebro se conecta de um jeito diferente: falta ali a rede de vasos minúsculos (os capilares) que costuma existir entre eles.


Pense nesses capilares como um "amortecedor". Sem esse amortecimento, o sangue que chega pelas artérias que é um sangue de alta pressão passa direto para as veias, com força maior do que a região está preparada para receber. E é justamente esse desequilíbrio que pode repercutir no funcionamento do cérebro ao redor.


Por que a MAV pode mexer com a sua memória e o seu raciocínio


Talvez você esteja se perguntando: "mas se ela nunca sangrou, como pode estar afetando minha cognição?" A resposta está em alguns mecanismos silenciosos:


  • A MAV pode desviar parte do sangue que deveria irrigar o tecido ao redor. Esse tecido passa a receber menos oxigênio e menos nutrientes do que precisa não o suficiente para causar um dano evidente, mas o bastante para deixar aquelas áreas trabalhando abaixo do seu potencial.

  • Quando a MAV está numa região responsável por uma função específica como a linguagem ou a memória, é essa função que fica mais vulnerável.


Em resumo: mesmo uma MAV "quietinha", que nunca deu sinal de sangramento, pode estar comprometendo o cérebro de um jeito sutil e contínuo daqueles que a gente sente no dia a dia antes de conseguir nomear.


O que a ciência já mostrou


Aqui está o ponto que considero mais importante, e que os estudos vêm confirmando: As dificuldades cognitivas costumam já estar presentes antes de qualquer tratamento.


Em um estudo que publiquei como primeira autora no Journal of Neurosurgery, pessoas com MAV cerebral ainda não tratada tanto as que já haviam sangrado quanto as que nunca sangraram já apresentavam alterações cognitivas. E o mais revelador: isso acontecia inclusive em quem não tinha nenhum outro sintoma neurológico aparente.


Esse achado tem uma consequência prática enorme. Ele mostra que, muitas vezes, essas alterações já existiam antes de qualquer cirurgia ou procedimento e não foram causadas por eles. E revela uma falha nos grandes estudos da área (como o conhecido estudo ARUBA): eles mediram coisas como a capacidade de andar e o risco de morte, mas, não avaliaram a cognição deixando de fora justamente aquilo que mais pesa na qualidade de vida de quem convive com a MAV.


Esse padrão também aparece nas crianças e nos adolescentes. Um estudo mais recente do nosso grupo, no qual avaliei um grupo de crianças com MAV, publicado no Journal of Neurosurgery: Pediatrics, mostrou que a grande maioria dos jovens com MAV, com ou sem sangramento, apresentou algum tipo de alteração cognitiva. Em crianças, isso é ainda mais delicado, porque pode influenciar o aprendizado na escola e a convivência com os colegas.


De forma geral, o que a MAV mais costuma afetar é:


- A capacidade de planejar, organizar e manter o foco nas tarefas

- A memória

- A atenção e a rapidez para processar informações

- O raciocínio com números, especialmente em crianças e adolescentes


Se você se reconheceu em algum desses pontos, saiba que isso não é "frescura" nem "coisa da sua cabeça" pode ter uma explicação concreta.


E depois da cirurgia? O que acontece com a cognição?


Essa é uma das perguntas que mais escuto de pacientes e familiares e é exatamente ela que investiguei na minha tese de doutorado, defendida na UNIFESP. Acompanhei pessoas operadas por microcirurgia para a retirada da MAV, comparando o funcionamento cognitivo antes e seis meses depois da cirurgia (com ou sem embolização), com uma avaliação que examina oito áreas da mente (como atenção, memória, linguagem, aritmética e funções executivas).


Dois resultados importam muito para você:


1. As dificuldades já estavam lá antes. Quase 8 em cada 10 pacientes (77,5%) já apresentavam alguma alteração cognitiva antes mesmo de operar. Isso reforça que, na maioria das vezes, o desafio cognitivo não foi "criado" pela cirurgia ele já existia.


2. A cirurgia, em geral, não piorou e nem melhorou a cognição. Mesmo em malformações localizadas em áreas delicadas (as chamadas "áreas eloquentes"), a microcirurgia, na maior parte dos casos, não piorou o funcionamento cognitivo.


Essa é uma informação valiosa e, para muita gente, tranquilizadora. É comum que o medo de "perder capacidades" com a cirurgia ou embolização pese tanto quanto o medo do sangramento. Como toda pesquisa, esse estudo tem seus limites e pede continuidade, mas ele já oferece um norte importante.


E há uma lição que atravessa tudo isso: só dá para saber como a sua cognição evoluiu se ela for medida antes e depois. Sem essa "fotografia" inicial, ficamos no escuro e é aí que entra a avaliação neuropsicológica.


Como a avaliação neuropsicológica ajuda você:


A avaliação neuropsicológica é como um "mapa" detalhado do seu funcionamento mental. Nenhum exame de imagem consegue mostrar isso: a ressonância revela onde está a MAV, mas é a avaliação que mostra como ela está afetando a sua vida na prática, sua memória, sua atenção, seu raciocínio.


Na prática, ela ajuda a:


1. Enxergar dificuldades que passam despercebidas, aquelas que não aparecem no exame neurológico comum e que, às vezes, nem você mesmo tinha percebido.

2. Registrar como está a sua cognição antes de um tratamento, criando um ponto de comparação para acompanhar o que muda depois de uma cirurgia, embolização ou radiocirurgia.

3. Ajudar o time médico a planejar o tratamento com mais segurança, principalmente quando a MAV está em áreas delicadas inclusive em cirurgias em que o paciente permanece acordado para preservar funções importantes.

4. Guiar a reabilitação, direcionando o trabalho exatamente para as áreas que precisam de apoio.

5. Cuidar da pessoa por inteiro do bem-estar emocional, da qualidade de vida e, no caso das crianças, do desenvolvimento e da vida escolar.


Colocar a neuropsicologia dentro do cuidado da MAV não é um detalhe acadêmico. É reconhecer que você não é apenas "um risco de sangramento a ser controlado" é uma pessoa, com uma mente, uma rotina, um trabalho, estudos, relações. E tudo isso merece ser compreendido e protegido.


Uma mensagem para você


Se há uma ideia que eu gostaria que ficasse com você depois desta leitura, é esta: a MAV pode afetar a sua cognição, e isso pode e deve ser avaliado. Não para assustar, mas para cuidar melhor.


Perceber esse lado da doença muda a conversa: em vez de olhar só para o risco de sangramento, passamos a olhar também para a sua mente e para tudo o que ela faz por você todos os dias. Se você convive com uma MAV e sente que "algo mudou" na sua memória, na sua concentração ou no seu raciocínio, converse com sua equipe sobre uma avaliação neuropsicológica. Você tem o direito de ser cuidado por inteiro.



Escrito por Daniela de Souza Coelho, neuropsicóloga titulada pelo Conselho Federal de Psicologia, com Residência Multiprofissional em Neurologia e Neurocirurgia e Mestrado e Doutorado pela UNIFESP/EPM. Pós-doutoranda na USP, é uma das principais pesquisadoras brasileiras dedicadas à neuropsicologia das malformações arteriovenosas cerebrais, com autoria de referência no tema incluindo o estudo pioneiro sobre desempenho cognitivo em pacientes com MAV publicado no Journal of Neurosurgery. Coordena o grupo de pesquisa "AWAKE - Cognição e Neurocirurgia" e atua como docente e orientadora em programas de pós-graduação


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